segunda-feira, 25 de maio de 2009

Eu quero me lembrar

Deitados no sofá da sala, vendo os o vôlei olímpico na TV (Brasil ganhando de 2 a 0 do Japão), Soroh me sai com essa:


- Eu queria poder me lembrar... de cada detalhe de você. - e pára um instante, me encarando docilmente - porque eu não lembro...


E não lembra mesmo, ele tem uma memória péssima. Todos os anos que estivemos juntos eu contei a ele quando foi a primeira vez que nos conhecemos e todas as vezes que eu contava soava como uma novidade para ele.


Eu de repente o encaro meio embasbacada, lembrando, obviamente, daquilo que é mais relembrado no último ano da minha vida: a morte do pequeno Luiz. Me vem à tona uma lista interminável das memórias que tenho dele, ao ponto de imaginá-lo ao meu lado, correndo com o skate debaixo do braço.


Derramo de chorar no colo do Soroh, a realidade é muito pungente. Minha vontade é marcar cada um daqueles momentos que vivi perto do Luiz na minha mente, pois é a única coisa de me resta daquela experiência prazerosa que era conviver com aquele menino de oito anos, da pele morena; do cabelo lisinho, escorrido; do nariz de perfeitas proporções, empinadinho; e de personalidade muito marcante.


Lembro sempre a primeira vez que o vi. Naquele dia, o Soroh acordou lá em casa preocupado, me dizendo pra irmos almoçar na sua casa, porque o filho estava lhe esperando. Quando chegamos na casa dele, o Luiz correu como um jato em cima do pai e grudou nele como um polvo. Soroh, é claro, abriu um sorriso de orelha a orelha, e o levou pra dentro de casa nos braços.


Enquanto o primo dele correu pra trás do sofá com vergonha de mim, que era nova no pedaço, Luiz só me encarou meio desconfiado e não deu muita bola. Ele era muito discreto, a ponto de só brincar nos brinquedos que ficavam próximos da gente, no clube, e de nunca se enturmar, por mais que as outras crianças ficassem se oferecendo pra brincar com ele. E, aliás, eu não era grande novidade pra ele, que ficava enumerando pra mim as namoradas que o pai teve.


Ele dava valor às suas memórias e sempre me contou diversas histórias da sua vida. De quando ele, com três anos, morava do lado da tão amada vó Carmina, e por vezes ia visitá-la, deixando os pais desesperados o procurando. E, quando paramos para comprar cerveja na distribuidora do Guará, ele me mostrou onde ficava a quitinete para onde o pai se mudou logo que se separou da mãe dele. Quando ele se mudou pra a nossa casa, ele sempre contava da musse de maracujá da mãe, que ele adorava, e pedia macarrão ao alho e óleo, como a Veri fazia.


Aliás, ele ter ido morar comigo e com o Soroh foi um baque pra mim. Tudo foi tão planejado, com tanto entusiasmo, apesar de eu sentir um certo medinho de arrumar um outro “filho”. Mas, desde que nos mudamos para uma casa grande no Guará, eu insisti pro Soroh convencer a Janise a deixar o Luiz viver com a gente. Eu queria muito que o meu filho tivesse uma convivência mais próxima com o irmão mais velho, para que esse não fosse apenas um parente distante dele, mas um irmão de verdade. E, é claro, eu sofria ao ver o sofrimento do Soroh, que tinha que conviver com a saudade diária do filho que morava em Palmas.


Eu não imaginava o quanto iria adorar a experiência de ter um “filho” mais velho, com quem eu podia fazer um monte de coisas que o meu filho não fazia. E que, além do mais, amava demais o Ângelo. Desde que ele soube que eu estava grávida, ele dizia: “Eu pedi a Deus um irmão, e ele me deu”. E colocava o ouvido e a mão na minha barriga pra tentar sentir o bebezinho se mexendo. E contava pra gente tudo o que ele ensinaria para o irmão mais novo, como estrelinhas e cambalhotas.


Uma das coisas que eu simplesmente A-D-O-R-A-V-A fazer com ele era acompanhar a elaboração do seu dever-de-casa. Mesmo que ele tivesse uma certa revelia disso, ele tinha que fazer e, se eu não ficasse no pé, ele enrolava. Como não era das coisas que o menino mais gostava e tinha puta dificuldade de se concentrar, ele pedia pra ficar de cabeça-pra-baixo, plantando bananeira na cama, cada vez que eu falava uma coisa que ele não sabia. Dizia que era o seu método de aprendizado, e levantava a cabeça dizendo “ah, entendi!”. E repetia isso um monte de vezes pra me enrolar quando não tava mais afim de fazer o dever.


É muito bom lembrar dele, claro que não tão bom como era tê-lo por perto, mas é o que eu tenho agora. Um dia, Dona Nice fitou uma foto dele e comentou o quanto ele era bonito. Mais um monte de imagens do rosto dele apareceram como um vídeo-clipe em minha mente. Eu digo a ela o quanto ele tinha o rosto fininho e o nariz-bem-feito.


Fui limpar a foto do Luiz pra colocá-la no porta-retrato. E logo saí pra área encarando aquele rostinho. As memórias fazem como um mosaico na minha mente, de todos os momentos em que ele me encarava com aquele olhar simpático e um tanto desinteressado na minha pessoa. Limpei com os olhos fixos no detalhe do olhar dele, puxando à memória todas as imagens que pudessem surgir daquele rosto.


Quando ele ficava fitando o Ângelo com um olhar encantado, assustado com a relusência da pele do bebezinho loiro que meu filho era, encantador logo que nasceu, Luiz dizia que Ângelo era mais bonito que ele. Eu dizia que não, que Ângelo tinha um big “nariga”, mas o dele - eu apontava - era perfeito.


As lembranças dele fazem parte de mim e quero vivê-las a todo o momento. Mas já não deixo mais que me arrebatem o tempo todo, pois me desconcentra totalmente. É rememorar momentos felizes que não quero esquecer e ao mesmo tempo lidar com o trauma do acidente que eu vivi, das culpas que eu carrego e com a saudade daquela presença que trazia tanta alegria em tantos momentos.


O acidente foi, ao mesmo tempo, a experiência mais traumática que tive na minha vida e também aquela em que eu mais tive que ser forte e batalhar, pela saúde do meu filho. Esse foi o primeiro dia em que eu sofri as consequências da morte.


Ainda sinto um frio na barriga quando lembro o que aconteceu quando o pneu do meu carro estourou, do nada, a mais de 100 km/h e começamos a bambear na estrada. Eu realmente não sabia o que fazer, é horrível admitir a minha culpa. Sabia que, nessa hora, não se deve pisar no freio, mas nem entendia o porquê e não imaginava como reverter a situação sem freiar. Estupidamente pisei na embreagem, mas não tentei reduzir a marcha. Não soube fazer nada, além de tentar manter o veículo na estrada. Mas logo ele saiu e capotou no mato. O Luiz estava de cinto, mas tinha afrouxado para deitar. O Ângelo também estava de cinto, na cadeirinha, mas os dois foram jogados pra fora do carro. Anjinho foi o que menos se machucou, teve leves arranhões. Já o Lulu teve o seu tórax esmagado pelo carro que caiu em cima dele. Soroh e Anderson tiveram que levantar o carro para tirá-lo dali.


Fomos socorridos imediatamente por um cara com uma caminhonete que estava parada ao lado. Fomos levados para o hospital da cidade natal do Luiz, Porto Nacional, Tocantins. Era a mais próxima do acidente. Soroh foi com ele na caçamba da caminhonete, desesperado. Luiz ficou o dia inteiro na sala de cirurgia, foi operado pelo mesmo médico que fez o seu parto. Teve que ser transferido para o hospital da capital e, por volta das cinco da tarde, soube que o perdemos. Foi ver tudo se desmanchando, uma sensação apavorante essa perda irreversível.


Mas ainda me restam as recordações que eu tenho do Luiz, dos poucos meses que eu, de fato, pude passar ao lado dele. Do tanto que esse menininho de oito anos me ensinou. Com quem eu passei tantos momentos memoráveis.


Lembro de levá-lo aos skate-parks, quando ele começou a treinar com skate. Ele tinha muito talento, pesquisava manobras no youtube e ficava fazendo no quintal de casa, me chamando pra ver a cada quinze minutos. Ele desenhava muito e incrivelmente bem, fazia castelos chineses, robôs e shows de rock. Eu quadrinizava e roteirizava histórias para ele desenhar. Criamos personagens super-heróis para ele, seu irmão e seus primos, na qual o Soroh era uma espécie de Mestre Splinter.


Um dia, na Livraria Cultura, ele me apresentou o quadrinho das Aventuras do Capitão Cueca, que virou uma das nossas diversões. Foram muitas noites que eu lia pra ele, depois de ele ficar brincando de deixar o Ângelo trepar nas suas costas, em cima da nossa cama, a brincadeira predileta dos irmãos. A gente entretinha o Ângelo como podíamos, com livros e outras coisas, entrávamos nas cobertas pra nossa leitura. Ele ria muito na hora do vire-o-game, uma brincadeira da história que dá impressão de movimento do desenho, mexendo a página de um lado pro outro.


Foram poucos meses junto dele, mas uma imensidão de coisas que lembro o tempo todo. Quero lembrar mais, quero guardar as poucas memórias que tenho dele para o resto da minha vida. Eu sempre vou amá-lo, como se ele estivesse ao meu lado.